domingo, 1 de maio de 2011

“Quase sem querer”



“Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. E ainda estou confuso, só que agora é diferente. Estou tão tranquilo e tão contente”. Assim são as idéias na cabeça do recém apaixonado. Quem adoece de amor, sofre de tudo ao mesmo tempo, numa miscelânea de sentimentos e razões, martírios e imperfeições. Porque sim! O amor é imperfeito! Não me assusta a sua imperfeição, mas me fere. Dói no gogó... Isso mesmo! O amor engasga e aprisiona as lágrimas, que, quando libertas, fluem com o afiamento do mais precioso sabre, cortando a pele e deixando cicatrizes que nunca se fecham. Mas não preciso de misericórdia; a piedade é para os fracos. Prefiro degustar minha dor diluída em bom bocado de dignidade. E é por este ingrato preferir que encontro na música do Legião Urbana a história da minha vida.
“Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém”. Muito jovem para entender o que é amar, velho demais para aprender. Fui seu melhor amigo, trazendo no peito a insígnia da sinceridade. Tratei seus cabelos com carinho de irmão e ouvi suas preces com imparcialidade de padre. Saciei sua ansiedade com a minha presença e ouvi sua voz a noite inteira. Dos seus lamentos fui criado e das suas vontades me fiz escravo.
“Me fiz em mil pedaços pra você juntar, e queria sempre achar explicação pro que eu sentia”. Serenou saudade pela primeira vez, dia desses. Quanta ausência ela me fez... Não me faltava ela, mas meu próprio eu. Afogava-me nas profundezas dos meus desejos e perdia-me na intolerância das minhas vontades. Senti nojo do meu promíscuo querer e pensei em me afastar da fonte da minha penúria. Não o fiz...
“Como um anjo caído fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”. Conhecer a verdade é fácil, difícil é aceitá-la. Sabia que estava perdidamente, desproporcionalmente, enlouquecidamente e deploravelmente demente de paixão, mas não tive coragem de aceitar. Depois acabei aceitando...
“Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo”. O amor, queridos e queridas, ele é irreparável. É reação em cadeia que, quando iniciada, não tem freio. Não sabia o que enfrentava, só me deixei levar. Faltava apenas a declaração. Mas não fui criança o suficiente para ignorar as consequências. Preferi - preferir é sempre terrível - continuar a viver sem ela a perdê-la; se é que me fiz entender...
“Já não me preocupo se eu não sei por que. Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê. Eu sei que você sabe quase sem querer. Que eu vejo o mesmo que você”. Como diria Eduardo Costa, em sua música Ilusão: “Seu amor pra mim é uma necessidade”. O ser humano tende a valorizar-se demais. Foi este excesso de valorização que nos levou a acreditar que a Terra era o centro do universo e que a Europa era o mundo inteiro. Foi o mesmo excesso que me levou a acreditar que o amor era minha exclusiva necessidade. Erro imperdoável: É a necessidade de todo vivente.
“Tão correto e tão bonito; o infinito é realmente um dos deuses mais lindos!”. Desenfreado, meu desejo só se fez engordar crescer sadio. Desejo sozinho de nada vale; ele deve estar acompanhado de coragem para que as coisas aconteçam. Por mais que contemos estrelas, sempre haverá aquela que não foi contada, pois são infinitas. Infinita foi a minha história, já que não teve início nem fim. Não sei ao certo quando comecei a amá-la, nem vejo o fim...
“Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas?”. Deveria ter me olhado no espelho antes. Talvez tivesse percebido a tempo quem estava ali e o que estava fazendo. Se tivesse me perguntado “De quem é esta cara refletida”, talvez tivesse despertado, e poderia ter dito um clichê “Eu te amo”. É a frase mais repetida, no entanto, a mais singular. Cada vez que é dita soa diferente e traz no corpo um novo significado. Quantos significados tem a fatídica expressão? São como as estrelas: Infinitos!
“Me disseram que você estava chorando, e foi então que eu percebi como te quero tanto”. Aquela lágrima não era minha, e talvez nunca seja... O pranto era por quem não as merecia. Mas quem merece ser amado? O amor é egocêntrico. Você simplesmente ama a quem escolhe; quer mereça ou não. Fui egoísta. Ela foi egoísta. E é por isso que nos amamos... Isso mesmo! Amamos-nos a vida inteira! Foi por intermédio de confidente em comum que ficamos sabendo. E foi ao receber dela a frase de encerramento da música do Legião Urbana que percebi que a nossa vida estava contida na sua letra:   
“Já não me preocupo se eu não sei por que. Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê. Eu sei que você sabe quase sem querer. Que eu vejo o mesmo que você”. Voltando a usar palavras repetidas: Continuo muito jovem para entender o que é amar, e velho demais para aprender...
Nota: Texto fictício. Não fui apaixonado por nenhuma das minhas coleguinhas de infância. Na verdade, nunca tive uma coleguinha de infância.
Segunda Nota: O vídeo é da versão de Maria Gandú. Achei bonitinha a versão.
Música do entre aspas: Quase sem querer (Dado Villa-Lobos, Renato Russo, Renato Rocha).
Texto: Eric de Almeida Bustamante

7 comentários:

Gustavo Rodrigues S. Dias disse...

caro colega blogueiro, o texto é realmente muito bonito. Mas sabemos que nem sempre falar de amor é bonito também, não é verdade?

Enfim, quanto mais coisas bonitas pudermos adicionar à vida, mais legal ela fica. A gente busca um ponto "x" de coisas boas.

Quanto ao video da maria Gadú, opiniões pessoais à parte, mas ela me causa náuseas! hehe

Abraços.

Eric Bustamante disse...

Obrigado Gustavo. Bom... Já que a Maria Guandú causa náuseas, aí vão os links com a versão original do Legião Urbana e a de Zélia Dunkan, respectivamente:

http://www.youtube.com/watch?v=2UkiLbkbDv0

http://www.youtube.com/watch?v=GlVHbg-xujc

Gustavo Rodrigues S. Dias disse...

Agora sim, Miss!

Maíra Vasconcelos disse...

Li pouquinho.... Ah, mas o amor....
Motor da vida, companheir@s...
Espero possamos tod@s aprender a ser livres, livres, livres...O ciume é natural, a monogamia não!!! :)

Um oi p/ os "meninos da rua"..

Eric Bustamante disse...

Um grande oi para nós todos! Obrigado pela visita Maíra.

Érica disse...

Oi, Nego!

Gostei muito do texto.. já tinha lido mas, quis ler de novo para refrescar a memória...

Gostei muito de vários trecho mas, principalmente deste:
"Preferi - preferir é sempre terrível" faz muitíssimo sentido!

Quanto ao final do texto, quando o mocinho recebe por intermédio de outrem a frese de encerramento da música, destoa da versão original. Com o Legião é assim:

"E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que EU QUERO o mesmo que você".

Acho que faria até mais sentido com o fim do texto...

Mas só pra reafirmar... muito bom o texto...

Grande beijo...

Eric Bustamante disse...

Obrigado Eriquinha. Já mudei lá. Foi um erro de Ctrl+C, Ctrl + V. Bjus.