“Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. E ainda estou confuso, só que agora é diferente. Estou tão tranquilo e tão contente”. Assim são as idéias na cabeça do recém apaixonado. Quem adoece de amor, sofre de tudo ao mesmo tempo, numa miscelânea de sentimentos e razões, martírios e imperfeições. Porque sim! O amor é imperfeito! Não me assusta a sua imperfeição, mas me fere. Dói no gogó... Isso mesmo! O amor engasga e aprisiona as lágrimas, que, quando libertas, fluem com o afiamento do mais precioso sabre, cortando a pele e deixando cicatrizes que nunca se fecham. Mas não preciso de misericórdia; a piedade é para os fracos. Prefiro degustar minha dor diluída em bom bocado de dignidade. E é por este ingrato preferir que encontro na música do Legião Urbana a história da minha vida.
“Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém”. Muito jovem para entender o que é amar, velho demais para aprender. Fui seu melhor amigo, trazendo no peito a insígnia da sinceridade. Tratei seus cabelos com carinho de irmão e ouvi suas preces com imparcialidade de padre. Saciei sua ansiedade com a minha presença e ouvi sua voz a noite inteira. Dos seus lamentos fui criado e das suas vontades me fiz escravo.
“Me fiz em mil pedaços pra você juntar, e queria sempre achar explicação pro que eu sentia”. Serenou saudade pela primeira vez, dia desses. Quanta ausência ela me fez... Não me faltava ela, mas meu próprio eu. Afogava-me nas profundezas dos meus desejos e perdia-me na intolerância das minhas vontades. Senti nojo do meu promíscuo querer e pensei em me afastar da fonte da minha penúria. Não o fiz...
“Como um anjo caído fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”. Conhecer a verdade é fácil, difícil é aceitá-la. Sabia que estava perdidamente, desproporcionalmente, enlouquecidamente e deploravelmente demente de paixão, mas não tive coragem de aceitar. Depois acabei aceitando...
“Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo”. O amor, queridos e queridas, ele é irreparável. É reação em cadeia que, quando iniciada, não tem freio. Não sabia o que enfrentava, só me deixei levar. Faltava apenas a declaração. Mas não fui criança o suficiente para ignorar as consequências. Preferi - preferir é sempre terrível - continuar a viver sem ela a perdê-la; se é que me fiz entender...
“Já não me preocupo se eu não sei por que. Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê. Eu sei que você sabe quase sem querer. Que eu vejo o mesmo que você”. Como diria Eduardo Costa, em sua música Ilusão: “Seu amor pra mim é uma necessidade”. O ser humano tende a valorizar-se demais. Foi este excesso de valorização que nos levou a acreditar que a Terra era o centro do universo e que a Europa era o mundo inteiro. Foi o mesmo excesso que me levou a acreditar que o amor era minha exclusiva necessidade. Erro imperdoável: É a necessidade de todo vivente.
“Tão correto e tão bonito; o infinito é realmente um dos deuses mais lindos!”. Desenfreado, meu desejo só se fez engordar crescer sadio. Desejo sozinho de nada vale; ele deve estar acompanhado de coragem para que as coisas aconteçam. Por mais que contemos estrelas, sempre haverá aquela que não foi contada, pois são infinitas. Infinita foi a minha história, já que não teve início nem fim. Não sei ao certo quando comecei a amá-la, nem vejo o fim...
“Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas?”. Deveria ter me olhado no espelho antes. Talvez tivesse percebido a tempo quem estava ali e o que estava fazendo. Se tivesse me perguntado “De quem é esta cara refletida”, talvez tivesse despertado, e poderia ter dito um clichê “Eu te amo”. É a frase mais repetida, no entanto, a mais singular. Cada vez que é dita soa diferente e traz no corpo um novo significado. Quantos significados tem a fatídica expressão? São como as estrelas: Infinitos!
“Me disseram que você estava chorando, e foi então que eu percebi como te quero tanto”. Aquela lágrima não era minha, e talvez nunca seja... O pranto era por quem não as merecia. Mas quem merece ser amado? O amor é egocêntrico. Você simplesmente ama a quem escolhe; quer mereça ou não. Fui egoísta. Ela foi egoísta. E é por isso que nos amamos... Isso mesmo! Amamos-nos a vida inteira! Foi por intermédio de confidente em comum que ficamos sabendo. E foi ao receber dela a frase de encerramento da música do Legião Urbana que percebi que a nossa vida estava contida na sua letra:
“Já não me preocupo se eu não sei por que. Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê. Eu sei que você sabe quase sem querer. Que eu vejo o mesmo que você”. Voltando a usar palavras repetidas: Continuo muito jovem para entender o que é amar, e velho demais para aprender...
Nota: Texto fictício. Não fui apaixonado por nenhuma das minhas coleguinhas de infância. Na verdade, nunca tive uma coleguinha de infância.
Segunda Nota: O vídeo é da versão de Maria Gandú. Achei bonitinha a versão.
Música do entre aspas: Quase sem querer (Dado Villa-Lobos, Renato Russo, Renato Rocha).
Texto: Eric de Almeida Bustamante


7 comentários:
caro colega blogueiro, o texto é realmente muito bonito. Mas sabemos que nem sempre falar de amor é bonito também, não é verdade?
Enfim, quanto mais coisas bonitas pudermos adicionar à vida, mais legal ela fica. A gente busca um ponto "x" de coisas boas.
Quanto ao video da maria Gadú, opiniões pessoais à parte, mas ela me causa náuseas! hehe
Abraços.
Obrigado Gustavo. Bom... Já que a Maria Guandú causa náuseas, aí vão os links com a versão original do Legião Urbana e a de Zélia Dunkan, respectivamente:
http://www.youtube.com/watch?v=2UkiLbkbDv0
http://www.youtube.com/watch?v=GlVHbg-xujc
Agora sim, Miss!
Li pouquinho.... Ah, mas o amor....
Motor da vida, companheir@s...
Espero possamos tod@s aprender a ser livres, livres, livres...O ciume é natural, a monogamia não!!! :)
Um oi p/ os "meninos da rua"..
Um grande oi para nós todos! Obrigado pela visita Maíra.
Oi, Nego!
Gostei muito do texto.. já tinha lido mas, quis ler de novo para refrescar a memória...
Gostei muito de vários trecho mas, principalmente deste:
"Preferi - preferir é sempre terrível" faz muitíssimo sentido!
Quanto ao final do texto, quando o mocinho recebe por intermédio de outrem a frese de encerramento da música, destoa da versão original. Com o Legião é assim:
"E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que EU QUERO o mesmo que você".
Acho que faria até mais sentido com o fim do texto...
Mas só pra reafirmar... muito bom o texto...
Grande beijo...
Obrigado Eriquinha. Já mudei lá. Foi um erro de Ctrl+C, Ctrl + V. Bjus.
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