terça-feira, 24 de maio de 2011

O grande segredo de Aluvião Quaresma

I – Palmeiras Bailarinas

Fotografia de Eric de Almeida Bustamante: Ilhéus - BA
                Água corre ligeira num último suspiro doce antes de salgar-se no mar. Fria, ferruginosa e encorpada pelos sedimentos, ela percorre os metros restantes já sem vida. Parece que os peixes, ao perceberem a proximidade do fim, abandonam o que outrora fora seu lar, subindo o rio sem olhar para trás, despidos de qualquer tipo de remorso; tal e qual fazem os peixes d’água salgada, que evitam envenenar-se na água doce. O que resta do encontro do rio com o mar é água triste, vazia e morta.
                Dizem que a morte é só o começo da vida eterna. Neste caso, trata-se da mais pura verdade, pois o oceano logo devolve à água o que lhe foi furtado, recomeçando o eterno ciclo vicioso de vida e morte. “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”. Falando em vida... Ela prospera até nos locais mais inóspitos, mesmo na aparentemente insalubre mistura do doce com o salgado.
                Casal de seres humanos peleja ofegante por ali, no enlace das ondas com a areia, sem se preocupar com salinidade ou doçura. Para eles basta o lugar ser deserto. Isso mesmo! Existe animal que prefere um escaldante deserto, sem provisão alguma para se acasalar! Quão perfeitas e imperfeitas são as peculiaridades da natureza...
                Emaranhado de braços e pernas gira entregue ao destino da maré, sem deixar saber quem é quem, quem será, ou quem foi, quem...
                Areia fina, branca e fofa cobre a parte desprovida de vegetação que protege a mata atlântica da gulodice do oceano, que, num apetite vorás, devora, engole e regurgita tudo o que encontra pela frente, inclusive o casal.
                Protegidas da bulimia marítima, par de palmeiras balança de maneira distinta das demais. Vento deita palmeira como o dançarino faz com a dama durante o tango, deixando seus cabelos quase de encontro ao solo. Mas aquelas duas estavam frenéticas, como se a dança não fosse o tango, mas a lambada.
                Se na selva de pedras as paredes têm ouvidos, na selva orgânica as moitas têm olhos e ouvidos. Entre as palmeiras bailarinas, atrás da vegetação arbustiva, estava agachado Aluvião Quaresma, a observar o que se sucedia na praia “deserta”. Mas, antes que me venham com falsas acusações sobre o caráter do pobre homem, vos digo de quem se trata: Pois bem, trata-se de senhor sério. Pai de família e pescador destemido, que no intervalo entre uma tarrafada e outra, e na ausência de local apropriado, fora buscar abrigo na mata para realizar suas necessidades fisiológicas.
                Surpreendido pela repentina movimentação de braços e pernas rolantes, e envergonhado por fazer na natureza o que é natural, não pôde revelar sua presença, tornando-se um voyer por acaso. O que me leva a crer que nem toda sacanagem acontece por sacanagem, mesmo que haja sacanagem envolvida; se é que vocês me entendem.
                O fato é que Aluvião Quaresma que, como foi dito, é sério, não é de ferro. Diante de toda aquela sacanagem, não parava de pensar em sacanagem. E foi isso que fez com que as palmeiras ganhassem vida. Leitor atento deve se perguntar: “Como é que um só homem, com uma das mãos “ocupadas”, pode fazer duas palmeiras balançarem daquele jeito tão latino? Digo que para saber de tais coisas, só escutando Caetano Veloso com seus batuques cósmicos, que nos fazem lembrar que existe jeito para tudo no sul da Bahia, desde que se tenha paciência, e muita...


II – Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come


                Refestelados depois do amor, os três observavam o sol, que já estava a pino, indicando que era hora de ir. Com seu corpo nu, dourado pelo astro rei, levantou-se a dona dos desejos daqueles dois homens. Os cabelos compridos e molhados que lhe escondiam o rosto foram afastados num movimento cuidadoso, revelando a identidade, e por assim dizer, a promiscuidade da jovem dama. Era nada mais, nada menos, do que Santinha, a jovem e endiabrada esposa de Marcolino Bituca, que, por sua vez, era um grande amigo de Quaresma.
Dizem que desgraça, quando pouca, é bobagem... Não bastasse a mulher ser esposa de Marcolino Bituca, o dito cujo que estava em sua companhia era o Juca Bala, amigo de infância de Aluvião Quaresma.    
Diante dos fatos, devo dizer que, por mais que se enobreça o homem, a perfeição ainda é reservada aos deuses. De quê valia agora a honestidade do pescador, se ele não podia usá-la? Narrando seu vislumbre a Marcolino Bituca, estaria traindo seu amigo Juca Bala; guardando a língua na boca e enterrando o sucedido, estaria traindo ao outro. “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.
Naquela vila de pescadores, na esquina do nordeste com o sudeste, onde o cacau ainda é rei, a faca é a rainha. Nos reinados onde a Coca-Cola não impera a justiça não é súdita leal, mas tem que ser feita... Na ausência do tribunal, um bom arranca-tripas sempre resolve a pendenga.
Aluvião não queria ver nenhum estripa-bucho, ainda mais sendo ele o causador, no entanto, não sabia o que fazer:
- Vida de cão! Quando a esmola é muita, o santo desconfia... Como é que eu não desconfiei que o casalzinho era da vila? Se soubesse que daria nisso, nem teria olhado. E agora? Eles se fodem e quem de fode sou eu!
A grande maioria dos problemas não existe de fato, a não ser que os tomemos para nós. Solução mais simples do que esta também não existe: Ignore o problema que ele vai embora!
Assim fez Aluvião Quaresma enquanto observava o casal de amantes desaparecer por trás da curva. Infelizmente, o que é simples nem sempre é o mais fácil de fazer. Existe a tal da dignidade e o dito amor próprio que insistem em fazer do mais simples o mais difícil. Sendo merecedor dos nobres títulos de digno e amantíssimo, Aluvião Quaresma fez surgir donde nada havia, o maior problema do mundo.

III – Segredo só é bom quando é dos outros


Daquele dia em diante, Santinha e seu desconcertante amante fizeram ampla morada na mente de Aluvião, não deixando espaço para mais nada. Problema, depois de criado torna-se móvel e onipresente. Segredo, quando não pode ser divulgado, é contemplado com as mesmas características. Existem segredos e segredos... Alguns podem ser contados a amigos ou parentes, outros, são aqueles que nem o detentor deveria conhecer. O grande segredo de Aluvião Quaresma é um daqueles que nem a esposa pode saber, para que não vire notícia.
O pescador passou a levar seu problema a tiracolo para todos os lugares. No trabalho, os peixes pareciam tê-lo abandonado, como fizeram na foz. Em casa, o trato com a esposa já não era o mesmo, inclusive na cama. Na roda de amigos não se fazia mais piadas. Sua cara andava tão atrofiada de preocupação, que para os outros, o corno era ele.
As coisas não podiam continuar daquele jeito. Algo precisava ser feito, e em regime de urgência! Mas como o faria sem causar tragédia? A única maneira encontrada por Quaresma foi conversar diretamente com Santinha. Talvez diante da exposição, a moça criasse modos. Assim o grande segredo poderia ser esquecido.
Santinha lavava roupas para fora, e Aluvião Quaresma viu ali a chance de conversar com ela. Acordou bem cedo, passou a mão nas tralhas de pesca e saiu. Seguiu para o rio a passos de levantar poeira.
Lá estava ela, sentada numa pedra arredondada, com os pés dentro d’água e a saia levantada até a altura das coxas, esfregando um lençol branco. A pele dentre os seios, gotejada de suor, estava à mostra devido à caprichosa falta de um botão. A moça, envolta numa cantoria sem fim, de tão distraída com a lida musical e a peleja com as roupas, nem percebeu a aproximação do pescador. Ao vê-la, o ele ainda pensou enquanto mordia os lábios: “Bem que eu podia estar na margem oposta... Assim veria o que aquele descuidado abre-pernas tem a mostrar... Ora! Deixe de ser à toa homem! Será que não aprende!”:
- Bom dia dona Santinha...
- Bom dia seu Aluvião. O quê o trás aqui tão cedo?
- É que eu ia passando e... Vou direto ao assunto. Vi você e o Juca Bala noutro dia na praia.
- Ah! Seu safadinho! E vai dizer que não gostou?
- Quê é isso dona Santinha? Sou um homem de respeito!
- Nem parece... E homem de respeito fica espreitando os outros?
- Não estava espreitando! É que... Deixa pra lá...
- Senta aqui do meu lado que o senhor está muito nervoso.
O homem assentou-se à margem do riacho e Santinha começou a massageá-lo com as mãos geladas pela água. Em instantes ele estava todo arrepiado feito animal assustado:
- Calma seu Aluvião. Parece que tem medo de mim...
- E eu lá sou homem para ter medo de mulher?
- Não está mais aqui quem falou...
Eta! Já sei donde veio a expressão “mãos de fada”! Veio da Santinha, que de santa só tinha o nome, mas das fadas era detentora da magia! Num minuto Aluvião Quaresma se esqueceu de que era sério; seu rosto passou de atrofiado para esticado e liso. No outro já não sabia do que viera tratar; seus dentes já estavam à mostra num largo sorriso. No seguinte, já nem se lembrava do amigo; somente recorrendo outra vez aos batuques cósmicos do Caetano para imaginar a estampa da sua face...
Dar-se ao desfrute pode até ser bom na hora, o duro é a ressaca que vem depois. O coitado, que já estava perturbado com o segredo, agora, com o rabo preso, tendia a piorar. Ficou que era pele e osso. Nem a comida lhe trazia o mesmo gosto. Tudo era amargura e sofrimento. Suas olheiras aumentavam dia a dia, pois o ato de dormir ficou no seu passado. Mais uma vez ele precisava fazer alguma coisa. Lembrou-se de Quintilhão Tanguana, seu amigo de infância, e o único da sua inteira confiança. Era arriscado, mas ele precisava se abrir. A angustia o estava devorando por dentro:
- Quintilhão, não sabia mais a quem recorrer. Estou passando por um problema que nunca pensei em passar. Não desejo isso nem para o pior inimigo.
- Pode se abrir homem. Em mim você sabe que pode confiar.
- Pois é... Vou direto ao assunto. Sabe a Santinha, esposa do Marcolino Bituca?
- Não precisa nem continuar... Eu confesso! Mas não foi por sacanagem. Eu tinha visto a safada às voltas com o Adamastor Ribeiro. Fui tirar satisfação, e deu no que deu...
- Mas então quer dizer que o senhor também... Deixa pra lá...
Eric de Almeida Bustamante.



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