Capítulo I – Noêmia
Nos momentos de lucidez minguante, coração de marmanjo palpita sem lei, alcovitando ensandecidos e fumegantes desejos. Pupilas apaixonadas, melindrosas e dilatadas firmam foco nos passos de quem despretensiosamente caminha ao sabor do destino. Olhos e ouvidos a despender atenção, com avidez de cão faminto; mãos e bocas a gesticular bobagens, mastigando cada palavra e engolindo a seco a falta de respostas; cabeça desgarrada dos sentidos a maquinar endiabradas luxúrias. Cada passo desgovernado de louco amante, sobre pernas bambas, elucida a ganância esdrúxula por mais e sempre da artista daquele show.
Certo apaixonado, certa feita, disse que, quando Santa Rita das Águas claras é o palco, Noêmia é a protagonista. Pois vejam se o é... Metro e setenta de preta que se atira às ruas num sensual vai e vem de pernas e coxas grossas. Graúda em toda a sua essência, com fartos e sinuosos contornos, e robustez sublime. Sutil no desenho da face, ostentando nariz de menininha branca, empinado, a afrontar o mundo que a desafia. Pele com brilho de porcelana negra, rija e aveludada, isenta do rubor envergonhado da pele clara, guardando a maciez contida nas carnes intrínsecas. Fartura de agrados aos olhos dos admiradores, agraciados com o banquete dos seus cheiros e sabores imaginários, desconhecidos e inexplorados, pois se trata de moça virgem.
Quando passa pelas ruelas estreitas, íngremes e curvilíneas da pequena província, deixa rastro de fanfarrões com seus rostos desfigurados por incontroláveis perversões. É rio d’águas caudalosas correndo solto, perpetuando saudades aos seus desventurados afluentes, sugados, tendo exaurida sua força. No abre e fecha das portas e janelas, Santa Rita fervilha num caos frenético de homens importunados pela ousadia da negra de roupas escassas, seguidos à risca pelas caras feias das suas ofendidas e enciumadas esposas. Ainda os homens, perversos que são, têm sua malícia agravada pela fragilidade da escrava recém liberta. Vêem-na como ovelhinha atirada aos lobos, a oferecer-lhes as prendas por dinheiro miúdo. Malandragem e aristocracia só caminham lado a lado quando se trata de Noêmia. Ambas as classes só pensam nos seus passos ariscos, a procurar a lisura das pedras mais arredondadas do calçamento da Avenida Central.
Não passam de pobres coitados, fadigados de tanto tentarem e continuarem a serem atentados... Sua gula é acentuada pela teimosia da donzela em entregar-se: “Serei apenas do primeiro a balançar-me o coração”. Coração este, latente de emoções e fantasias infantis, crente na idéia de um amor eterno. Não é mulher que se compre, ou menina que se atire por fala mansa de malandro qualquer; nem precisa. Vive bem e ganha o seu pão trabalhando em casa de gente direita, onde é livre de assédios. Livre e afastada de todos os males, continua efervescendo suspiros e dando o que falar a quem não tem o que fazer:
- Maldita abolição! Bradou Armandinho. E continuou:
- Não fosse por ela, já a teria comprado. Pagaria o que preciso fosse, mas a teria...
O armazém do Chico Brandão transbordava de gente à procura de comida, bebida e conversa fiada. Não havia sequer um vagabundo desgarrado que ali não marcasse presença. O zum-zum-zum grave e uníssono, quase enfurecido dos machos ecoava pela Rua das Aroeiras, podendo ser ouvido até da Matriz da Penha. Aguardente mimava a garganta dos barbados e sujos frequentadores. Enfileirados diante do largo balcão de tábuas de carvalho, de pé, a balbuciar bobagens, os brutos não tinham outro assunto senão Noêmia:
- Mas como é jeitosa!
- É preta para se casar!
- Não é para tanto...
- Pois se não o é, o que é então?
Enquanto isto, do outro lado da rua, no armazém do Aderbal, mais refinado e bem frequentado, sentados às mesinhas brancas da calçada, fidalgos bebiam cervejas e vinhos finos, e devoravam porções de carne assada, entretanto não falavam sobre as iguarias, mas sobre Noêmia. Embora menos truculentos, os senhores de “respeito” não obstavam das suas disputas. A conversa era em voz baixa e contida, no entanto recheada de conteúdos ríspidos e competitivos. Quanto maiores o poder e as posses do pretendente, maior a sua obstinação pela conquista. Não se passava pela cabeça daqueles homens que as carícias de Noêmia não estavam à venda, expostas numa vitrine. Pensavam eles, com suas cabeças mesquinhas, de quem se vê como dono do mundo, que a negra era interesseira, como a maioria das demais recém libertas. Estavam demasiadamente enganados; ela não se daria ao que melhor lhe servisse financeiramente, mas ao que mais ardilosamente a conquistasse.
As horas voam quando boas conversas, comidinhas e bebidinhas se misturam. O que atrapalha é o danado do álcool, que nem sempre é dominado pelos homens; às vezes é ele quem os domina. E lá estavam todos aqueles brutos e fidalgos, cada um do seu lado da rua, sem saber ao certo quem era dominado ou quem dominava a bebida. Como regentes de orquestras, os garçons levantavam e abaixavam bandejas enquanto os fregueses se inflamavam mais e mais. Cantorias e promessas, bravatas e profecias. Não sei se quem deu a nota errada foi um garçom fora do tom, mas pelas dez da noite, tanto num bar quanto no outro, a gritaria e a desafinação era geral. Ali não se distinguiam mais os ricos dos pobretões. Uns gritavam suas idéias de um lado da rua e outros respondiam aos berros do outro lado. Por fim, tudo se tornou uma baderna geral.
Já passava das dez e trinta quando a polícia chegou acionada sabe-se lá por qual vivente. As praças apearam dos cavalos e ficaram sem reação ao notar que lá estavam as pessoas mais ilustres da sociedade. Mantiveram-se ponderados nas suas ações e quase nada puderam fazer; a balbúrdia continuou. Falando arrastado, gritando e cuspindo, com os olhos arregalados, a barba por fazer e exalando odores etílicos, aquele bando de fanfarrões se divertia sem hora para terminar. Dona Selma que mora em cima do armazém do Aderbal já pensava em atirar-lhes baldes d’água. Ela acreditava que assim os ânimos seriam acalmados. Suas bem gastas chinelas de couro eram arrastadas da sala para o quarto, enquanto, sobre elas, desfilava dona gorda e com cara de poucos amigos. Bufava de ódio e bradava ao vento que aquilo não era coisa que se fizesse. “Pensam que ninguém trabalha? Antes do nascer do sol tenho que estar arqueada sobre a tina! Ora... Deixa estar que já lhes mostro!”. Nisso, de uma hora para outra, fez-se um alarmante silêncio lá fora. Ouvidos acostumados com barulho, logo estranham sua falta, e dona Selma foi conferir a causa daquela curiosa quietude. Abriu brandamente a janela, com um leve ranger de paus, e lá estavam eles, frente a frente, cara a cara, prontos a se enfrentarem.
Os dois homens se olhavam e circundavam-se feito galos na arena. Pêlos ouriçados; olhares fixos; silhuetas elevadas. Cada qual queria parecer maior do que o outro, elevando-se quase às pontas dos pés para poder olhar de cima para baixo com ar ameaçador. O motivo da disputa não poderia ser outro, senão a cobiçada preta. Cisca daqui, cisca de lá e nada da briga começar. A concentração era total e nenhum cedia um palmo de distância ao outro. Seus punhos cerrados profetizavam golpes, no entanto, estes não eram desferidos. Respirações ofegantes e batimentos cardíacos acelerados anunciavam que a luta estava por um fio. Bastava uma gota para que o copo transbordasse e a gota veio na forma de ofensa: “É a sua mãe!”. Começou então o enfrentamento, que mais parecia uma estranha e desengonçada dança. Genivaldo, representante dos menos abastados, girava os punhos, um ao redor do outro, como se eles se orbitassem, e Manoel, afeto dos fidalgos, arqueava o corpo à retaguarda, em postura defensiva. Depois a coisa se invertia. A poeira levantou-se e a turma do “deixa disso” apresentou-se para tentar por fim àquela hilariante disputa. Com ajuda dos milicos a briga foi apartada sem que sequer um bofetão fosse desferido, e num acordo de cavalheiros, ficou decidido que venceria a pendenga o que primeiro conseguisse se ajeitar com Noêmia.
Capítulo II – Que vença o melhor
Que mania horrorosa a dos homens, de pensarem que são donos das mulheres... Independentemente do empenho e desempenho de cada um, a decisão final é delas. E nem sempre as moças optam por parâmetros sistemáticos. Para ser deveras sincero, quase nunca se decidem à custa da lógica; usam e abusam da subjetividade a qual denominamos coração. E o coração de Noêmia, mimado como foi, dispensava humildade e extravasava vaidade na manhã seguinte.
Jornais e revistas são inúteis em lugarejos como Santa Rita das Águas Claras. As casas, quase todas de parede e meia, facilitam a interação entre os vizinhos, que aos proclames das janelas ficam sabendo de tudo e um pouco mais. Os primeiros raios de sol trouxeram a notícia de que a negra era disputada literalmente a unhas e dentes pelos fidalgos e plebeus, que segundo informações oriundas de dona Clementina, atracaram-se em batalha sangrenta na noite anterior. Clementina contou que as tropas estavam formadas a toque de tambor e avançavam em direção à multidão, que se negava a deixar o palco de conflito antes que a ultima gota de sangue regasse o solo. “As mulheres atiravam pétalas de rosas em homenagem aos bravos guerreiros!”. “Foi quando, apenas para evitar-se uma carnificina entre seus seguidores, os combatentes contiveram seus músculos em prol da diplomacia!”.
- Mas dona Clementina... Não carecia de tanto... Bastava que me cortejassem... Disse a preta enquanto saboreava uma xícara de café amargo.
- Deixa de ser boba filha... Amor só é válido com sacrifício...
De posse da valiosa informação, e valendo-se da esperteza vinda de berço, Clementina foi procurar ambas as partes para vendê-la a preço de ouro. Na verdade, foi vendida a preço de ouro a Manoel e de latão a Genivaldo, que não dispunha de tantas posses.
Eleitos os representantes de classe e traçadas as estratégias de guerra, deu-se então a Batalha dos ricos contra os pobres. Os “de classe” evitavam cumprimentar os “sem classe” e vice versa. Era comum trocar de lado no passeio quando um grupo avistava o outro. As conversas eram pelos cantos, aos sussurros. A clientela dos armazéns era dividida e ninguém ousava pisar no armazém do inimigo, pois seria considerado traidor. Ninguém querida ficar de fora da disputa. As mulheres participavam ao seu modo: Jogavam búzios e tarôs e a fofoca era arma poderosa. Fazia-se inferninho de qualquer palavra mal ensaiada e o leva e traz das linguarudas era a engrenagem da máquina de batalha. A hostilidade era tamanha, que nem mesmo as crianças escapavam: As brincadeiras passaram a ter disputas acirradas entre filhos de fidalgos e plebeus.
Passados dois dias da declaração de guerra, Manoel, grande campeão dos ricos, desfilava ladeira acima com sorriso no rosto. Muito aprumado e com roupas de domingo, dava ares de que alguma carta escondia nas mangas. O rumo que tomava era a casa de Guilhermino, onde Noêmia trabalhava. De bobo o português nada tinha: Pretendia infiltrar-se na casa de Noêmia sob pretexto de interesses comerciais com seu guardião. Tirava o chapéu para todos os seus comparsas, que sem saber do que se tratava, fritavam o cérebro de curiosidade. Manoel não divulgara suas idéias aos amigos, temendo haver algum espião no grupo. Trazia um calhamaço de papéis enrolados, cada qual com uma fitinha azul: Títulos, que pretendia negociar com Guilhermino. Por onde passava, deixava um rastro de fofoqueiros e curiosos a cochichar e segui-lo com os olhos. A cena lembrava muito os desfiles matinais de Noêmia...
Ao chegar diante da casa de Guilhermino, Manoel ajeitou a roupa e o chapéu, esfregou as mãos, a fim de limpá-las, e bateu palmas. Foi recebido a rigor pelo dono da casa, que já estava avisado de sua vinda. É que o português mandara um pequeno, em missão especial ao alvorecer. Os dois entraram como se fossem velhos amigos. Lisonjeio atrás de lisonjeio e mesuras mil:
- Fique à vontade senhor Manoel, pois a casa é sua.
- O senhor é muito gentil, mas refira-se a mim apenas como Manoel...
- Faça o mesmo, nobre amigo, retire o senhor d’antes do meu nome!
Depois de livrar-se dos penduricalhos, o convidado adentrou a sala, onde tomou um susto. Inacreditavelmente Genivaldo estava sentado à sala, com um largo e debochado sorriso. O português se empalideceu e não conseguiu disfarçar a sua insatisfação:
- O que é isso homem? Parece que viu o diabo! Perguntou Guilhermino.
- Não é nada... Acho que foi o calor.
- Por um instante pensei que você não se desse com o Genivaldo.
- Não se preocupe; até somos amigos...
Refeito do susto foi sentar-se ao lado do seu oponente, que não parecia abalado com a presença do rival. Guilhermino foi mandar fazer um refresco para que as visitas pudessem combater o calor, e deixou-os a sós. Manoel aproveitou o momento para assuntar:
- O quê faz aqui? Seu...
- Sou pedreiro... Não se lembra? Como estou desocupado e soube que o senhor Guilhermino pretende fazer um novo quarto na sua casa, vim oferecer-lhe meus serviços.
- Sei...
- Espanta-me é ver o senhor por aqui...
- Que ousadia! Pois saiba que vim negociar papéis com o senhor Guilhermino, que é bom investidor.
- Sei...
Os dois se calaram, pois o anfitrião estava por vir. Passaram então a observar e procurar por sinais de Noêmia. Olhavam de um lado, do outro, ajeitavam as roupas, buscavam melhor posicionamento nas cadeiras, assoviavam, mas não havia nenhum sinal dela. A danada da preta estava escondida no seu quarto, ora com a orelha colada à porta, ora com o olho bisbilhotando pelo buraco da fechadura. Não lhe escapava uma só palavra, um só gesto.
Capítulo III – Mocinha
Os olhos não viam, mas seus eficientes narizes farejavam. Do interior da casa vinha um perfume floral que hipnotizava os dois combatentes. A brisa trazia aos seus cuidados aquela essência, que parecia ter sido roubada de delicadas flores, e os homens suspiravam de olhos fechados ao senti-la. Mediam o tempo a conta-gotas esperando uma nova rajada daquele delicioso aroma. Ficavam impacientes e a ansiedade tirava-lhes o sossego. Guilhermino voltou à sala, onde, de comum acordo, já que os convidados eram “mui amigos”, tratava dos negócios com ambos, sem fazer cerimônias.
De repente, vinda da cozinha, uma voz chamou por Noêmia, que saiu do quarto às pressas e com cara de quem deve. Passou pela sala como um trovão, cumprimentando os presentes apenas com um leve aceno de cabeça. Quem chamava lá de dentro era a cozinheira, que acabara de preparar o refresco, e procurava pela moça para servi-lo. Logo ela estava de volta, trazendo na bandeja três copos de limonada fresca. Os convidados se serviram, entreolhando-se como se perguntassem: E o cheiro? De onde vem? Da preta é que não é... Depois foi a vez de Guilhermino se apoderar do esperado refresco, e a negociata adiantou-se tarde adentro. Genivaldo e Manoel, entre um lance e outro, farejavam o ar em busca do perfume floral, mas só sentiam o cheiro de Noêmia, que era bom, embora não se comparasse ao primeiro.
Terminados os assuntos de negócios, a dupla de “mui amigos” foi convidada para o jantar. Não podendo dispensar tal obséquio, ficaram. Cada um aninhou-se à cadeira que melhor lhe serviu; cada qual com a sua teoria de onde a preta se sentaria. Manoel pensou: “Ela virá da cozinha, logo ficará do lado direito da mesa, que fica mais perto”. Enquanto pensou Genivaldo: “Ela virá do quarto, logo ficará do lado esquerdo da mesa, que fica mais perto”. Enganaram-se ambos, pois se esqueceram que ela fazia parte da criadagem, realizando suas refeições na cozinha junto às demais serviçais.
O papo estava agradável e o cheiro do frango assado despertava-lhes os tigres famintos nos estômagos. Veio Noêmia e serviu-lhes vinho, seguida pela cozinheira, que trazia belíssimas baixelas de prata. Naquele momento, mediante a fome, o conteúdo tinha mais valia do que a reluzente prataria. Dizem que é na fome que descobrimos o verdadeiro valor das coisas... Parecia que Guilhermino pretendia valorizar a sua ceia, porque nunca destampava as baixelas, liberando a comilança:
- Beba o seu vinho homem de Deus! Disse o dono da casa a Manoel.
- Faz mal beber de barriga vazia...
Entendendo a indireta, mais do que direta, Guilhermino bradou:
- Mocinha! Apresse-se! Estamos todos famintos!
Por mais que a fome fizesse do cheiro do frango algo digno dos Deuses, o perfume floral que voltou pairar no ar chamou a atenção dos esfomeados. O misterioso perfume exalado era o de Mocinha, que adentrava a sala de jantar. Manoel e Genivaldo se olharam com cara de bobalhões, como se dissessem: “Então era daí que vinha aquele aroma...”. E seguiram-na com os olhos, que pareciam mariposas enfeitiçadas pela luz. Leandra, apelidada de Mocinha, filha única de Guilhermino, era recatada e quase não era vista pelas ruelas da vila. Também pudera; estudava na capital e retornava apenas nas férias, quando o pai a mantinha sempre ao seu lado, para saciar sua saudade.
- Não sabia que sua menina estava deste tamanho! Disseram os convidados ao mesmo tempo.
- Mocinha estuda na capital e só vem nas férias... É um amor de menina! Um anjo. Um anjo!
Diamante bruto era Noêmia, Mocinha era a pedra lapidada. Meiga, tímida e formosa. Doce, contida e melindrosa. Acurada, inteligente, bem vestida. Na beleza se igualava a Noêmia. Suas curvas sutis e delicadas faziam frente aos assanhados e sinuosos contornos da preta; ao seu modo. Dizem que há gosto para tudo. Naquela casa tais palavras refletiam a mais derradeira verdade. Quem gostasse de volume e formas contagiantes, voltaria os olhos para Noêmia, doutro modo, quem se atraísse pela perfeição contida e imaculada, só teria olhos para Leandra. O aventureiro que tivesse apreço por mulher espevitada e sensual pousaria os pensamentos na preta. Já os que preferissem a mulher prendada e glamorosa, não pensariam noutras graças, senão nas de Mocinha. Um bibelô de vitrine, com sua pele alva e intocada, lembrando uma boneca de porcelana, sempre banhada a água de cheiro. Cabelos ruivos, cor de sangue, cor de paixão. Na lisura dos seus traços angelicais trazia o desenho típico da mulher européia, com queixo encorpado, nariz fino e sombreado, maçãs do rosto coradas por ligeiro rubor permanente e sobrancelhas finas e simétricas. Do cintilante dos seus olhos faziam-se dois sois de verão, donde se via, ao desfalecer das pálpebras, a morte e a queda das folhas de outono, passando pelo escuro acinzentado e sombrio do inverno, quando se guardavam à espera da ressurreição, desabrochando em coloridas flores de primavera. Eram os olhos das quatro estações da mulher para a vida inteira...
Capítulo IV – O pacto de honra
Depois do jantar de poucas palavras, os rivais saíram juntos para manter a ilusão de que eram afetos. Se bem que... Não fosse a disputa pelo rabo de saia, dariam bons amigos. Gostavam das mesmas coisas e tinham idéias parecidas. Embora separados pelo precipício da classe social, valiam-se da mesma educação e fineza no trato. Só se enroscavam mesmo era no que a física prega sobre os milagres da eletricidade: Os opostos se atraem e os iguais se repelem. Não sendo grande conhecedor do assunto, mas imbuído de teorias baseadas no “nada sei, mas muito acho”, concluo que para o homem, tal proposição funciona. Pelo menos no tocante às mulheres... Dois homens que apreciam o mesmo tipo de mulher não devem andar juntos, pois é nesta hora que a porca torce o rabo...
Deixando de lado a porquinha com o seu rabinho enrolado e o seu focinho, que não é tomada, mudo de assunto com convicção de quem vê para crer: “Oh! Deus! Como o ser humano é complacente!”. Desventuras coletivas sempre hão de culminar em solidariedade... Por um momento os dois se esqueceram que o seu coleguismo não passava de encenação, e a conversa fluiu ligeira como rio que encontra estreitamento nas margens. E daquelas corredeiras vocálicas, um passou a conhecer e admirar o outro. Não se olhavam diretamente. Fitavam-se com os rabos dos olhos, cabisbaixos, meneando os ombros e gesticulando ao léu. Era preciso concentração para não sorrir durante o diálogo em público; estavam aos olhos da sociedade, que lhes imputara o compromisso de representantes de classes e inimigos mortais.
Muitos galos cantaram e muitas luas cresceram e minguaram. Os dois continuaram com a farsa do cortejo de Noêmia para, acredite quem puder: Encontrarem-se sob o teto de Guilhermino e colocarem a conversa em dia. Mal se davam conta do entra e sai da preta com as suas roupas mínimas. Apenas queriam saber se: “O amigo fez bons investimentos”. “A obra vai bem?”. “Por obséquio...”. “Primeiro o amigo”. “Depois do amigo...”.
Quem estava gostando das constantes patuscadas era Mocinha, que sozinha não ficava. Servia de companhia aos dois enquanto o pai tratava dos seus afazeres. Guilhermino também tinha apreço pelos de fora, pois, por anos, a solidão fora sua única companheira. Viúvo de muito tempo e de poucos amigos, com a filha entregue à escola, vivia das raras e sem graça conversas com a criadagem.
A felicidade estava evidente naquela casa. Mandava-se colher flores pela manhã para enfeitar a mesa à espera dos amigos. Os jantares, regados a muito vinho e gargalhadas terminavam tarde da noite. Depois Genivaldo e Manoel, seguindo a tradição, desciam a ladeira com cara fechada, fingindo-se de desafetos.
Mais luas e mais galos, e a cidade se tranquilizou. A rotina das vilas do interior nasce morna e a este estado tende a voltar. É certo que qualquer faísca reacende os ânimos, mas, por fim, se apaga rapidamente como fogo de palha. Mesmo porque, fidalgos não vivem sem o trabalho dos de braços fortes e vice-versa, visse? O povo de Santa Rita das Águas Clara já estava preparado para aceitar a promíscua amizade entre rivais, quando o episódio dos armazéns voltou a acontecer, porém por outras bandas...
A tarde se desenrolava quieta, como noutros dias, até que... Guilhermino, atendendo aos aflitos apelos da filha, adentrou a sala de supetão. Ficou embasbacado com a cena que presenciou. Os dois amigos repetiam o ridículo gira-punhos – arqueia-corpo doutros tempos. Eles saltitavam derrubando móveis e quinquilharias por onde passavam. E a “luta” percorreu toda a casa, indo dar na cama de Guilhermino, onde os dois se deitaram aos trancos e barrancos, esganando-se.
Com muito custo o dono da casa os separou. Estavam ofegantes e foram postos na sala, sentados, cada um de um lado da mesa, a fim de evitar novo confronto:
- Mas o que é isso homens de Deus? Parecem dois meninos mal criados a se atracarem por porca miséria!
- Desculpe senhor Guilhermino... Responderam num choroso coro.
- Digam-me. Porque brigaram desta maneira?
A lei do silêncio imperou vitoriosa na sala do castigo. Nem um nem outro ousou abrir a boca para dizer o motivo da desavença. Ficaram por ali de castigo, como dois pequenos. Pediram desculpas um para o outro, ao comando do dono da casa, que fazia o papel de pai dos “meninos”, e foram obrigados a apertarem as mãos. Ficou acordado que pagariam pelos prejuízos; Genivaldo com o seu trabalho e Manoel com dinheiro vivo. E acertou-se que na tarde seguinte os dois voltariam com boa explicação para o ocorrido. Há de se convir que a motivação do conflito não chegaria aos ouvidos do senhor Guilhermino, pois, desta vez, a protagonista era a sua filha. Sabe-se lá donde veio um comentário sem graça sobre sua pele e seu perfume. E o desfecho o leitor já sabe: Briga, e das feias...
Como disse antes: “Oh! Deus! Como o ser humano é complacente! Desventuras coletivas sempre hão de culminar em solidariedade...”. Na volta para casa, depois do castigo e da reconciliação, Buscando um acordo de cavalheiros, Manoel ofereceu Noêmia ao companheiro, em sinal de amizade – como se ela o pertencesse – e o amigo a recusou-a, dizendo que estava interessado em Mocinha:
- Se quiser, fique com ela. Mocinha é a razão do meu viver. Disse Genivaldo.
- Ora homem! Pois se estou desfazendo o motivo da nossa briga! Não dá valor à nossa amizade?
- Valor eu dou... Mas este motivo é passado. Agora só tenho olhos para Mocinha.
Estava lá, latente a motivação do ainda fresco confronto; e não poderia ser outra, senão rabo de saia, e não poderia ser doutra pessoa, senão Leandra. Com disse anteriormente e repito: “Os opostos se atraem e os iguais se repelem. Pelo menos no tocante às mulheres”. Não é que Manoel também estava caído por Mocinha, e por isso tentara empurrar Noêmia aos braços de Genivaldo!
Ainda perpetuando a teoria do ser humano complacente, os dois mais uma vez desceram a ladeira, confortando-se em solidariedade à má sorte um do outro. Àquela altura da vida o que valeria mais: O amor ou a honra? Quem optasse por Noêmia, seria honrado e respeitado por toda a Santa Rita das Águas Claras, já quem optasse pelo amor a Mocinha, seria tido como derrotado, e seria varrido das ruelas da cidade, como poeira imunda, que para nada presta:
- Caro amigo Genivaldo... Nossa amizade e nossa honra valem mais do que qualquer saia. Façamos um acordo!
- Pois saiba que também penso assim. Diga logo homem! Qual seria este acordo?
- Nem um, nem outro... Ficaremos os dois a ver navios. Façamos um pacto de honra! Não voltaremos jamais à casa de Guilhermino, pois lá vivem almas dos diabos, que nos enfeitiçam e fazem da nossa amizade um caos. Um caos!
- Se é para o nosso bem, que fique assim resolvido! Nunca mais retornaremos àquele covil de serpentes venenosas!
E despediram-se como bons amigos, deixando no passado a razão das desavenças. Nada mais seria capaz de afastá-los da boa paz...
Na tarde do dia seguinte houve gira-punhos – arqueia-corpo defronte a casa de Guilhermino...
Eric de Almeida Bustamante





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